Presidente do Paraguai, Santiago Peña, renuncia em meio a escândalo bancário e pressão por impeachment

(OHF) — O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, 5, em meio à grave crise política e financeira provocada pela intervenção do Banco Central do país (BCP) no Ueno Bank.

A decisão foi anunciada em um vídeo publicado nas redes sociais, após uma onda de protestos, a perda de apoio de integrantes de seu próprio partido e o avanço de um pedido de impeachment no Congresso. Assista abaixo:

Peña, que assumiu a Presidência em agosto de 2023 pelo Partido Colorado (ANR), disse que decidiu deixar o cargo para preservar a estabilidade do país, a paz social e as instituições democráticas.

O mandatário também pediu desculpas à população, mas não assumiu diretamente a responsabilidade pela crise. O vice-presidente, Pedro Alliana, deverá sucedê-lo.

O escândalo ganhou dimensão política devido às relações comerciais anteriores entre Peña e o grupo empresarial proprietário do Ueno Bank, o Grupo Vázquez. O presidente foi acionista de uma empresa ligada ao conglomerado até março de 2025, quando deixou sua participação.

Outro ponto de questionamento envolve Carlos Carvallo, que presidiu a Financiera Ueno, instituição que antecedeu o banco, e posteriormente foi indicado por Peña para comandar o Banco Central do Paraguai, órgão responsável pela fiscalização do sistema financeiro, incluindo a própria instituição em crise.

Durante o governo Peña, o banco também ampliou significativamente sua presença no setor público.

O Ueno mantinha aproximadamente US$ 800 milhões em depósitos de órgãos e entidades estatais, incluindo recursos do sistema público de previdência e saúde e de empresas responsáveis pelas grandes hidrelétricas paraguaias.

A concentração de recursos públicos em uma instituição que mantinha vínculos comerciais anteriores com o presidente levantou questionamentos sobre possíveis conflitos de interesses, favorecimento e falhas na fiscalização bancária.

O Banco Central iniciou o processo de intervenção e resolução do Ueno Bank após identificar irregularidades em operações de crédito, incluindo empréstimos concedidos a empresas relacionadas aos próprios controladores da instituição, em valores superiores aos limites legais.

A revisão dos registros contábeis também identificou despesas indevidamente contabilizadas como ativos. Após as correções, o capital da instituição ficou abaixo da metade do mínimo exigido pela legislação paraguaia.

A medida deixou milhões de clientes sem acesso às contas, aos cartões e às transferências bancárias. O Ueno possuía aproximadamente três milhões de clientes em um país com cerca de 6,5 milhões de habitantes.

As autoridades detiveram oito executivos da instituição, incluindo seu fundador, Miguel Vázquez, e o presidente do banco, Juan Manuel Gustale. Além disso, 27 dirigentes e pessoas relacionadas ao grupo empresarial foram formalmente acusados de possíveis crimes, entre eles administração desleal e tentativa de fraude.

A crise também atingiu diretamente integrantes do governo. A oposição apresentou acusações de conflito de interesses, utilização irregular de recursos previdenciários e encobrimento institucional. O caso provocou a saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central, após solicitação de Peña.

Nesta quinta-feira, o Ministério Público confirmou que Peña também passou a integrar a investigação sobre o caso Ueno.

Na quarta-feira, 4, parlamentares da oposição avançaram com um pedido de impeachment contra Peña. A iniciativa ganhou força nesta quinta-feira, quando integrantes de sua própria base política também retiraram o apoio ao presidente.

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