‘The Economist’ diz que Brasil dá ‘lição de democracia’ aos EUA com julgamento de Bolsonaro

(OHF) – O julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) estampa a capa da revista britânica The Economist.

A nova edição, que chega às bancas nesta quinta-feira, 28, traz uma foto de Bolsonaro com o rosto pintado de verde e amarelo e adereços semelhantes aos usados por Jacob Chansley, o “Viking do Capitólio”, um dos apoiadores de Donald Trump que invadiram o Congresso americano em 2021, após a derrota do republicano para Joe Biden.

Segundo a Economist, prestes a iniciar o julgamento de Bolsonaro e outros acusados de planejar uma tentativa de golpe, na próxima terça-feira, 2, o Brasil “oferece uma lição de democracia para uma América [Estados Unidos] que está se tornando mais corrupta, protecionista e autoritária”.

Bolsonaro está em prisão domiciliar desde 4 de agosto, foi considerado inelegível e pode ser condenado pelo esquema golpista, cujo episódio mais emblemático ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando seus apoiadores depredaram as sedes dos Três Poderes em Brasília.

Enquanto isso, embora Trump tenha incentivado apoiadores a marcharem até o Capitólio e hesitado em recuá-los diante de registros de violência em Washington, ele não foi julgado pelos atos de 6 de janeiro e se elegeu presidente novamente em 2024.

A revista britânica aponta sinais de erosão democrática nos EUA, citando a tentativa de Trump de interferir no Federal Reserve, ameaças de intervenção federal em cidades governadas por democratas e medidas em defesa de Bolsonaro, como a imposição de tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e a inclusão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, na lista de sancionados pela Lei Magnitsky.

A Economist observa que o julgamento de um presidente polarizado, que perdeu a reeleição e se recusou a aceitar o resultado, “soa como o sonho da esquerda americana”, mas é realidade “na outra grande democracia das Américas”.

A reportagem também destaca que as provas evocam o passado “turbulento” do Brasil: “Um ex-general de quatro estrelas conspirou para anular o resultado da eleição; assassinos planejaram matar o verdadeiro vencedor. Mas o golpe acabou fracassando por incompetência”.

Para a revista, Bolsonaro e aliados “provavelmente” serão considerados culpados, fazendo do Brasil “um exemplo para a recuperação de países afetados pela febre populista”.

A Economist afirma que Brasil e EUA “parecem estar trocando de lugar”: “Os Estados Unidos estão se tornando mais corruptos, protecionistas e autoritários — com Donald Trump esta semana mexendo com o Federal Reserve e ameaçando usar a Guarda Nacional em cidades controladas pelos democratas. Em contraste, mesmo com o governo Trump punindo o Brasil por processar Bolsonaro, o país está determinado a salvaguardar e fortalecer sua democracia”.

A publicação atribui a reação distinta das autoridades brasileiras à memória ainda recente da ditadura militar. Desde a reinstauração da democracia em 1988, o STF “ainda se considera um baluarte contra o autoritarismo”.

A reportagem ressalta que a maioria dos brasileiros “não tem dúvidas sobre o que Bolsonaro fez” e que até governadores conservadores “criticam seu estilo político”, embora dependam dos votos de seus apoiadores para enfrentar Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de 2026.

A revista também menciona um consenso “surpreendente”, “dos figurões empresariais de São Paulo aos políticos de Brasília”, sobre a necessidade de mudança institucional.

Paradoxalmente, uma tarefa “fundamental” seria “controlar” o STF. A publicação critica indiretamente a condução de inquéritos pelo ministro Alexandre de Moraes:

Como árbitro de uma Constituição com 65.000 palavras, o tribunal supervisiona uma gama estonteante de regras, direitos e obrigações, desde política tributária até cultura e esportes (…) Às vezes, os próprios juízes iniciam processos, incluindo um inquérito sobre ameaças online, alguns deles contra o próprio tribunal — tornando-o vítima, promotor e juiz”.

Há amplo reconhecimento de que juízes não eleitos, com tanto poder, podem corroer a política, bem como salvá-la de golpes”, conclui a Economist.

Você pode gostar...