Jornalista é adicionado por engano em grupo de mensagens com altas autoridades do governo Trump e fica sabendo antecipadamente de ataques contra Houthis

O editor-chefe da revista americana The Atlantic, Jeffrey Goldberg, foi adicionado por engano a um grupo de mensagens com altas autoridades do governo do presidente Donald Trump no aplicativo Signal, onde recebeu informações ultrassecretas sobre ataques iminentes dos Estados Unidos contra os Houthis no Iêmen.
Inicialmente cético, Goldberg não acreditava que estava em um grupo com figuras do alto escalão, como o secretário de Estado, Marco Rubio, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e até o vice-presidente JD Vance.
“Eu tinha várias dúvidas sobre se esse grupo era real“, afirmou em reportagem publicada nesta segunda-feira, 24, na Atlantic.
A confirmação veio quando, após dias de discussões sigilosas no chat, os ataques começaram exatamente como descrito nas mensagens.
Segundo Goldberg, tudo começou em 11 de março, quando recebeu uma solicitação de contato de um usuário identificado como Michael Waltz no Signal.
Embora o aplicativo seja conhecido pela criptografia de ponta a ponta e seja usado por aqueles que buscam privacidade, o jornalista estranhou o fato de a Casa Branca utilizar um canal não oficial para informações tão sensíveis.
A desconfiança aumentou devido à relação conturbada entre o governo Trump e a imprensa tradicional, que não pertence ao grupo de veículos alinhados ao presidente.
“Eu não conseguia acreditar que a liderança da segurança nacional dos Estados Unidos iria se comunicar no Signal sobre planos de guerra iminentes. Eu também não conseguia acreditar que o conselheiro de segurança nacional do presidente seria tão imprudente a ponto de incluir o editor-chefe da ‘The Atlantic’ em tais discussões“, escreveu Goldberg.
A partir de 14 de março, Vance e Hegseth começaram a discutir detalhes sobre um ataque ao Iêmen, de onde os Houthis têm lançado ofensivas para bloquear rotas marítimas no Mar Vermelho, impactando o porto israelense de Eilat.
Os Houthis, aliados do Irã e do Hamas, têm disparado mísseis contra Israel desde o início do conflito em outubro de 2023.
Em meio às mensagens, o vice-presidente desabafou: “Eu apenas odeio salvar a Europa de novo“, refletindo a visão do governo Trump de que os aliados europeus se beneficiam das ações militares dos EUA sem oferecer contrapartidas adequadas.
Hegseth respondeu: “Eu compartilho totalmente do seu desprezo pelos aproveitadores europeus. É PATÉTICO“.

No dia 15 de março, Hegseth compartilhou informações detalhadas sobre alvos e operações contra os Houthis.
Goldberg optou por não reproduzir essas mensagens, pois “se tivessem sido lidas por um adversário dos EUA, poderiam ter colocado em risco militares e agentes de inteligência americanos, particularmente no Oriente Médio“.
A certeza de que o grupo era real veio naquela tarde, quando Goldberg verificou as redes sociais e viu relatos de bombardeios em Sanaa, ocorrendo exatamente no horário mencionado por Hegseth.
Dias depois, ele obteve confirmação oficial ao questionar o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional.
Goldberg destaca que o Signal não é um canal autorizado pelo governo para compartilhar informações sigilosas, sendo que o Executivo americano dispõe de sistemas exclusivos para essa finalidade.
Segundo a Atlantic, Michael Waltz e outros membros do grupo podem ter violado várias leis, incluindo a Lei de Espionagem de 1917, que pune a exposição de informações que coloquem em risco a segurança e as relações internacionais dos EUA.