Crise no USS Abraham Lincoln: denúncias de falta de alimentos e problemas de saúde mental na tripulação pressionam governo Trump

(OHF) — O porta-aviões nuclear USS Abraham Lincoln (CVN-72), da Marinha dos Estados Unidos, se tornou alvo de crescente controvérsia após familiares de tripulantes denunciarem problemas de abastecimento, deterioração das condições de vida e agravamento da saúde mental a bordo.

O navio está em uma missão no Oriente Médio que já ultrapassa 260 dias, enquanto o período contínuo no mar supera 240 dias — um recorde para a embarcação. O Lincoln deixou San Diego, na Califórnia, em 21 de novembro de 2025, inicialmente com destino ao Pacífico.

A escalada do conflito entre os EUA e o Irã, porém, alterou o emprego do porta-aviões, que acabou sendo deslocado para a região e passou a participar das operações militares americanas.

Segundo o portal Stars and Stripes, o navio fez apenas uma breve escala em Guam, em dezembro, e, desde então, permaneceu praticamente de forma ininterrupta no mar. Cerca de cinco mil militares estão embarcados, entre marinheiros e fuzileiros navais.

As condições a bordo passaram a receber maior atenção depois que familiares de integrantes da tripulação começaram a relatar as dificuldades enfrentadas durante a longa missão.

Entre as denúncias estão problemas no abastecimento, atrasos na chegada de alimentos e itens básicos de higiene, dificuldades no fornecimento de água, instalações sanitárias deterioradas, chuveiros com mofo, problemas de encanamento e atrasos ou extravios de correspondências e pacotes enviados pelas famílias.

Também foram relatados sinais de exaustão e problemas relacionados à saúde mental. Parentes afirmam ter recebido mensagens de militares descrevendo cansaço extremo, queda no moral e dificuldades psicológicas associadas ao longo período de permanência no oceano.

Um dos episódios mais graves ocorreu no início de agosto, quando um tripulante caiu ou se lançou ao mar e foi resgatado rapidamente. A Marinha confirmou o caso, informou que ele recebeu atendimento médico e posteriormente deixou o navio para continuar o acompanhamento em terra.

Os primeiros sinais públicos de desgaste, no entanto, já haviam surgido antes de as denúncias ganharem maior repercussão. Em julho, a imprensa americana relatou o caso de um marinheiro que, em uma mensagem encaminhada a familiares, afirmou que a saúde mental e física da tripulação estava em perigo e pediu ajuda.

A repercussão levou cerca de 200 parentes a participar de uma reunião com autoridades da Marinha em San Diego. Eles cobraram explicações sobre a duração da missão e as condições enfrentadas pelos militares. Senadores democratas também passaram a pressionar o Departamento de Defesa por esclarecimentos e por uma investigação sobre as denúncias.

O Pentágono, entretanto, rejeita a avaliação de que o Abraham Lincoln esteja enfrentando uma crise generalizada. Na quinta-feira, 13, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que os relatos sobre as condições do navio foram “completamente distorcidos”.

Segundo ele, os navios americanos recebem os recursos necessários mesmo durante operações prolongadas, e a Marinha consegue manter o bloqueio contra o Irã porque possui capacidade para realizar a rotação das embarcações.

A versão foi contestada publicamente pelo senador da oposição Ruben Gallego, do Arizona. “Estou conversando com uma esposa de militar que está me encaminhando as mensagens de texto do marido dela. Eles estão levando nossos militares ao limite”, afirmou nas redes sociais.

A controvérsia aumentou ainda mais após o presidente Donald Trump ser questionado sobre a situação. Na sexta-feira, 14, ele rejeitou a avaliação de que a missão tenha sido longa demais e afirmou que a permanência do Abraham Lincoln no mar “não foi nem de longe longa o suficiente”.

Apesar das negativas do governo sobre uma possível crise a bordo, a Marinha confirmou o deslocamento do USS George Washington (CVN-73), que estava no Pacífico, para o Oriente Médio. O porta-aviões encontrava-se no Estreito de Malaca, próximo à Malásia, após deixar Da Nang, no Vietnã, e iniciou sua movimentação em direção ao oeste para substituir o CVN-72.

O governo americano afirma que a transferência faz parte de uma rotação planejada de forças e não é uma consequência direta das denúncias envolvendo as condições do Lincoln.

No entanto, para analistas, o deslocamento evidencia a pressão que a guerra contra o Irã exerce sobre a disponibilidade de ativos militares americanos e mostra como o Pentágono está sendo obrigado a redistribuir recursos entre diferentes teatros estratégicos.

Ao mesmo tempo, a situação do Abraham Lincoln ampliou o debate sobre os limites operacionais e humanos das Forças Armadas dos EUA.

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