Em carta à Noruega, Trump relaciona sua cobiça pela Groenlândia à perda do Nobel: ‘Não me sinto obrigado a pensar em paz’
(OHF) — Em uma carta enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que não se sente mais “obrigado a pensar apenas na paz” após não ter sido contemplado com o Prêmio Nobel da Paz pelo Comitê Norueguês.
Støre confirmou nesta segunda-feira, 19, o recebimento da correspondência, que chegou pouco depois de ele e o presidente da Finlândia, Alexander Stubb, terem “manifestado oposição às tarifas anunciadas por [Trump] contra” países que rejeitam a ambição do líder americano de assumir o “controle total e completo” da Groenlândia.
Na carta, Trump escreveu a Støre: “Considerando que seu país decidiu não me conceder o Prêmio Nobel da Paz por ter impedido mais de oito guerras, não me sinto mais obrigado a pensar apenas em paz”, acrescentando que, a partir disso, poderia “pensar no que é bom e apropriado” para os EUA.
No ano passado, o republicano realizou uma campanha intensa em busca da premiação, que acabou sendo concedida à líder da oposição venezuelana, María Corina Machado.
A cerimônia ocorreu em Oslo no mês passado, quando Machado recebeu o prêmio, posteriormente dedicado a Trump.
Segundo ela, o ex-presidente americano “merece” o Nobel, apesar do americano ter apoiado Delcy Rodríguez como sucessora do ditador deposto Nicolás Maduro na Venezuela.
Na semana passada, durante visita à Casa Branca, a líder opositora entregou a medalha da Paz a Trump. O Comitê Norueguês do Nobel, no entanto, reiterou que o prêmio não pode ser transferido, compartilhado ou revogado.
Na mesma carta, Trump voltou a insistir em seu desejo de assumir o controle da Groenlândia, território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca, e relacionou suas ameaças de anexação à negativa do Nobel.
“A Dinamarca não pode proteger aquela terra da Rússia ou da China, e por que eles teriam um ‘direito de propriedade’ afinal? Não existem documentos escritos, apenas se sabe que um barco atracou lá há centenas de anos, mas nós também tínhamos barcos atracados lá”, escreveu. “O mundo não estará seguro a menos que tenhamos o controle completo e total da Groenlândia”.
Em resposta, Støre divulgou comunicado lembrando que a concessão do Prêmio Nobel da Paz não cabe ao governo norueguês, mas a um comitê independente. “Expliquei com clareza, inclusive ao presidente Trump, que, como é amplamente conhecido, o prêmio é concedido por um Comitê Nobel independente”, afirmou.
O primeiro-ministro também reforçou que “a posição da Noruega sobre a Groenlândia é clara: a [ilha] faz parte do Reino da Dinamarca, e [Oslo] apoia integralmente o Reino da Dinamarca nesta questão”.
Nas últimas semanas, Trump intensificou a retórica contra a Groenlândia, chegando a afirmar que os EUA assumiriam o controle do território “de um jeito ou de outro”.
No sábado, 17, o presidente americano ameaçou impor tarifas de 10% sobre produtos da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia a partir de 1º de fevereiro, caso os EUA não sejam autorizados a comprar a ilha no Ártico.
Em reação, esses países — aliados no âmbito da Otan — reforçaram nos últimos dias sua presença militar na Groenlândia. Em um comunicado conjunto, as oito nações ameaçadas reiteraram apoio mútuo e criticaram a postura americana, alertando para os riscos à relação entre aliados históricos.
“As ameaças tarifárias minam as relações transatlânticas e correm o risco de provocar uma perigosa espiral descendente”, afirmaram. “Permaneceremos unidos e coordenados na nossa resposta. Estamos comprometidos com a defesa da nossa soberania”.
