Acordo tarifário de Von der Leyen e Trump recebe duras críticas na Europa: ‘fiasco político e moral’
(OHF) – O anúncio de um acordo comercial entre Estados Unidos e União Europeia, firmado no domingo, 27, na Escócia, a poucos dias da entrada em vigor do tarifaço anunciado por Donald Trump, trouxe algum alívio aos mercados.
No entanto, nesta segunda-feira, 28, líderes políticos, economistas, empresas e governos europeus reagiram com preocupação, criticando o que consideram um tratado desequilibrado e desfavorável à Europa.
O primeiro-ministro francês, François Bayrou, foi direto ao afirmar que a União Europeia se curvou diante da pressão americana. Para ele, o acordo representa um “dia sombrio” para o bloco.
“É um dia sombrio quando uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar seus valores comuns e defender seus interesses comuns, se resigna à submissão”, escreveu Bayrou no X (antigo Twitter).
A líder da Reunião Nacional, Marine Le Pen, também fez duras críticas ao pacto, classificando-o como um “fiasco econômico, político e moral”. Segundo ela, a UE abriu mão da soberania francesa e aceitou um acordo assimétrico que privilegia interesses externos.
Em suas palavras, o bloco europeu “entregou a agricultura francesa e a indústria nacional para garantir vantagens à indústria automobilística da Alemanha e ao complexo energético americano“. Para Le Pen, a capitulação diante de Washington revela uma Europa “fraca e desnorteada”.
Outras autoridades francesas também expressaram desapontamento. O ministro de Assuntos Europeus, Benjamin Haddad, afirmou que “esta situação não é satisfatória e não pode ser sustentada”, defendendo o uso do “instrumento anticoerção” da União Europeia, que permite retaliações não tarifárias.
Já o ministro do Comércio, Laurent Saint-Martin, criticou a condução das negociações pelo bloco, alegando que a UE deveria ter reagido com firmeza a uma “luta pelo poder iniciada por Trump”.
A insatisfação não se restringiu à França. O primeiro-ministro da Bélgica, Bart De Wever, afirmou que “este é um momento de alívio, mas não de celebração”. Segundo ele, “as tarifas aumentarão em diversas áreas e algumas questões-chave permanecem sem solução”.
O premiê da Hungria, Viktor Orbán, também criticou duramente o acordo, afirmando que “Trump comeu von der Leyen no café da manhã”, em referência à postura firme do presidente americano e à aparente submissão da Comissão Europeia nas negociações.
Na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez declarou, com pesar, que apoia o acordo “sem qualquer entusiasmo”. Ele defendeu que a Europa tire lições desse episódio e redobre os esforços para alcançar uma verdadeira autonomia estratégica, aprofundando relações comerciais com outros parceiros globais, incluindo o Mercosul.
Um acordo de livre-comércio com o bloco sul-americano foi assinado no ano passado, mas ainda não foi implementado.
No Parlamento Europeu, o líder do Partido Popular Europeu (PPE), Manfred Weber, declarou ao jornal alemão Bild que o pacto representa uma “mera limitação de danos”.
Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou a jornalistas no domingo que, diante da rigidez de Trump como negociador, o acordo foi “o melhor que podíamos conseguir”.
Os termos do tratado
Para evitar tarifas de até 30% que entrariam em vigor em 1º de agosto, a União Europeia aceitou uma taxa média de 15% sobre cerca de 70% de suas exportações para os EUA — incluindo automóveis. Apesar de ser uma redução em relação ao que Trump ameaçava, ainda é o triplo da alíquota vigente até então, de 4,8%.
Alguns setores conseguiram escapar da taxação. Peças de aeronaves, determinados produtos químicos, equipamentos semicondutores, cortiça e pisos estarão isentos.
O setor farmacêutico europeu, que poderia ser atingido por tarifas de até 200% no próximo ano, ficará limitado a uma alíquota de 15%, o que foi visto com alívio.
No caso do aço, as tarifas continuarão em 50% até que um novo acordo baseado em cotas seja negociado.
Como contrapartida, a UE se comprometeu a ampliar investimentos no setor energético dos EUA, com a promessa de realizar compras estratégicas no valor de US$ 750 bilhões nos próximos três anos. Isso inclui petróleo, gás natural liquefeito (GNL) e combustível nuclear.
Ainda não está claro, porém, como os EUA conseguirão atender à demanda projetada.
