Reino Unido e União Europeia anunciam acordo para redefinir laços pós-Brexit
O Reino Unido e a União Europeia anunciaram nesta segunda-feira, 19, um novo acordo para reformular suas relações após o Brexit, com foco em comércio, segurança e cooperação militar.
O anúncio foi feito em Londres pelo primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, ao lado da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa.
O entendimento remove parte das barreiras comerciais impostas desde a saída britânica do bloco, em 2020, e marca a retomada da colaboração em defesa.
O novo pacto surge em um momento de instabilidade geopolítica, no qual europeus e britânicos buscam reduzir a dependência dos Estados Unidos sob o presidente Donald Trump — nove anos após o plebiscito que levou o Reino Unido a deixar a UE.
“É hora de olhar para frente”, afirmou Starmer. “Deixar para trás os velhos debates e disputas políticas estéreis, e focar em soluções práticas e de bom senso que tragam o melhor para o povo britânico.
A mensagem foi reforçada por von der Leyen: “Estamos agora virando a página e abrindo um novo capítulo.”
O encontro, o primeiro entre líderes do Reino Unido e da UE desde o fim formal do Brexit, teve cerca de duas horas de duração.
Para Starmer, que apoiou a permanência na UE à época do referendo, facilitar o acesso de visitantes e comerciantes britânicos ao mercado europeu pode neutralizar críticas de apoiadores do Brexit que enxergam o novo acordo como uma traição.
Apesar disso, o plano envolve riscos políticos. Questões delicadas como direitos de pesca e imigração permanecem em pauta e exigirão negociações adicionais ao longo dos próximos meses.
Segundo o governo britânico, a nova parceria com seu maior parceiro comercial deve cortar burocracias para produtores agrícolas e de alimentos, ajudando a reduzir o preço dos alimentos, melhorar a segurança energética e gerar um impacto de quase £9 bilhões (R$ 70 bilhões) na economia britânica até 2040.
Esse é o terceiro grande acordo internacional assinado pelo Reino Unido neste mês, após pactos com Índia e EUA. Ele se insere em um cenário global marcado por mudanças nas alianças tradicionais e pela aproximação de Londres com líderes europeus como o presidente francês Emmanuel Macron.
Uma concessão na área da pesca foi crucial para destravar o acordo: embarcações britânicas e europeias terão acesso mútuo às águas territoriais por 12 anos, em troca da redução permanente da burocracia e das verificações de fronteira, que vinham dificultando a exportação de alimentos por pequenos produtores britânicos.
O secretário de Negócios britânico, Jonathan Reynolds, elogiou o novo arranjo: “Não se trata apenas do que você pesca, mas de para quem você vai vender”, declarou, ressaltando que o setor poderá se beneficiar da abertura do mercado europeu.
Por outro lado, grupos pesqueiros temem que o acordo se torne definitivo e acusam o governo de ter cedido demais. A ala conservadora e a imprensa crítica à UE já falam em “traição” ao setor.
Estudos da Universidade de Aston projetam que as exportações agrícolas britânicas para a UE podem crescer mais de 20% com a implementação das novas regras.
Em 2024, as exportações de alimentos e bebidas do Reino Unido para o bloco somaram £14 bilhões (R$ 106 bilhões), segundo a Federação de Alimentos e Bebidas. A indústria pesqueira britânica, no entanto, representa apenas 0,03% do PIB do país.
Outro pilar do acordo é a parceria em segurança e defesa, que deve impulsionar o rearmamento e o treinamento militar conjunto entre britânicos e europeus.
Os detalhes finais do pacto foram fechados durante negociações intensas que avançaram pela noite de domingo, 18, abrangendo também comércio de alimentos e um esboço de programa de mobilidade para jovens.
Apesar das expectativas britânicas, o pacto não incluiu medidas para permitir o uso de portões eletrônicos por cidadãos britânicos em viagens ao continente.
A UE condicionou esse avanço, bem como mudanças para facilitar turnês de músicos britânicos, ao progresso nas negociações sobre mobilidade de jovens — que prevê que estudantes e trabalhadores possam circular entre o Reino Unido e países do bloco.
Esse é justamente um dos pontos mais sensíveis do acordo. Embora as partes tenham concordado em seguir negociando uma solução, o tema deve enfrentar forte resistência interna, já que Starmer lida com pressões domésticas sobre a política migratória.
