Presidente do Paraguai diz que suposta espionagem do Brasil reabre ‘velhas feridas’ da guerra do século XIX e exige respeito

Presidente do Paraguai, Santiago Peña - Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, afirmou nesta sexta-feira, 4, que a denúncia de espionagem por parte da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) contra autoridades paraguaias reabre “velhas feridas” da Guerra do Paraguai — conflito travado entre 1864 e 1870, no qual o país enfrentou a Tríplice Aliança, composta por Brasil, Argentina e Uruguai.

É uma notícia bastante desagradável. Você sabe que o Paraguai tem uma história bastante dura na região, certo?”, disse Peña em entrevista à Rádio Mitre, da Argentina.

Em um momento da nossa história, tivemos que enfrentar uma guerra de extermínio, que foi a Guerra do Paraguai, contra três irmãos — Uruguai, Argentina e Brasil — mas principalmente liderada pelo Brasil. E, depois da guerra, o Brasil permaneceu em território paraguaio por quase uma década. Essas são feridas que estamos buscando curar”, continuou.

Segundo ele, o episódio reacende ressentimentos do passado. “Infelizmente, esse tipo de atitude apenas reabre velhas feridas, quando o que queremos é deixar para trás essa história de ódio e ressentimento. Infelizmente, hoje percebemos que esses sentimentos ainda existem.

A crise começou após a publicação de uma reportagem que revelou supostas ações da Abin contra autoridades paraguaias, especialmente envolvidas nas negociações do Anexo C do Tratado de Itaipu — que trata das condições de comercialização da energia da usina binacional.

A partir disso, o Ministério Público do Paraguai abriu, na quinta-feira, 3, uma investigação criminal para apurar a possível espionagem digital.

Segundo depoimento de um servidor da própria Abin à Polícia Federal, a operação teria ocorrido durante o governo de Jair Bolsonaro e envolvia a invasão de sistemas paraguaios para acessar informações confidenciais sobre a renegociação do tratado.

Após a denúncia, o governo brasileiro divulgou nota responsabilizando a gestão anterior e informou que a suposta operação foi tornada “sem efeito” pela atual direção da Abin assim que assumiu, no inicio de 2023.

Em meio à tensão, o Paraguai convocou o embaixador do Brasil em Assunção, José Antônio Marcondes, para prestar esclarecimentos. Também chamou de volta o embaixador paraguaio em Brasília, Juan Ángel Delgadillo, para consultas, e suspendeu as negociações do Anexo C até que a situação seja esclarecida.

Não falei com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem tenho uma excelente relação pessoal, mas esse é um problema grave que vai além de Peña ou Lula — é uma questão de Estado”, disse o presidente paraguaio a jornalistas.

Ele destacou que seu governo tem agido com firmeza. “O que pedimos é que tudo seja esclarecido. Estamos tratando de um assunto institucional, não pessoal.

Peña também comentou que o Paraguai já vinha investigando ataques cibernéticos, inicialmente atribuídos à China, antes de descobrir indícios de envolvimento do Brasil. “Estávamos olhando para a China e hoje soubemos que nosso vizinho estava fazendo ações de espionagem contra nós.

A Polícia Federal brasileira, por sua vez, abriu no dia 31 um inquérito para apurar o vazamento de informações relacionadas a uma possível “Abin paralela”, suspeita de utilizar estruturas oficiais para fins ilícitos.

Por fim, Peña afirmou que o país continuará defendendo seus interesses com firmeza e respeito. “Não é somente o governo de Santiago Peña. Este é o governo do Paraguai, que defende os interesses do Paraguai de maneira respeitosa com outros países, mas também exige respeito”, concluiu.

Você pode gostar...