Governo argentino anuncia investigação sobre criptomoeda promovida por Milei, que também será alvo de apurações

O governo argentino anunciou no sábado, 15, uma “investigação urgente” sobre o lançamento de uma criptomoeda promovida pelo presidente Javier Milei na sexta-feira, 14.
O ativo digital, que teve um aumento explosivo em seu valor logo após a menção de Milei em uma publicação no X, viu seu preço despencar poucas horas depois, em meio a acusações de fraude e pedidos de um “julgamento político” por parte da oposição.
O presidente, diante das críticas, apagou a postagem, alegando que não possuía informações suficientes sobre a criptomoeda.
Em sua mensagem original, fixada por mais de cinco horas em seu perfil no X, Milei compartilhava um link para o “Projeto Viva La Libertad”.
Ele escreveu: “A Argentina liberal está crescendo!!! Este projeto privado será dedicado a incentivar o crescimento da economia argentina por meio do financiamento de pequenas empresas e startups argentinas. O mundo quer investir na Argentina. $LIBRA“.
No entanto, uma hora após a publicação, quase US$ 90 milhões foram retirados de poucas carteiras digitais que concentravam 82% da circulação do $LIBRA, fazendo seu valor despencar.
Ao perceber o impacto, Milei publicou uma nova mensagem explicando que não estava ciente dos detalhes do projeto e, por isso, apagou o tuíte: “Há algumas horas, publiquei um tuíte, como tantos outros incontáveis, apoiando uma suposta empresa privada com a qual, obviamente, não tenho qualquer ligação. Eu não estava ciente dos detalhes do projeto e, depois de tomar conhecimento, decidi não continuar a divulgá-lo (por isso apaguei o tuíte)”.
A partir daí, economistas, especialistas em criptomoedas e políticos da oposição começaram a questionar o caráter do ativo digital, apontando-o como possível golpe ou esquema de pirâmide.
As críticas aumentaram, levando o governo argentino a anunciar, ainda no sábado, que o caso seria encaminhado ao Escritório Anticorrupção (OA), com o objetivo de investigar eventuais condutas impróprias por parte de qualquer membro do governo, incluindo o próprio presidente.
Além disso, foi criada uma “Força-Tarefa Investigativa” vinculada à Presidência, encarregada de apurar o lançamento da criptomoeda e a participação de quaisquer empresas ou indivíduos envolvidos no processo, conforme informado em um comunicado no X.
O $LIBRA, uma “memecoin” sem lastro na economia real, estava praticamente vinculado a apenas cinco carteiras digitais. Após a promoção de Milei, o valor da criptomoeda saltou de US$ 0,30 para US$ 4.978, mas perdeu cerca de US$ 4 bilhões de capitalização de mercado em poucas horas, com investidores se desfazendo de suas cotas.
De acordo com o jornal Página 12, os investidores que retiraram seus fundos durante a queda embolsaram cerca de US$ 107 milhões (aproximadamente R$ 610 milhões).
Consultorias especializadas, como a The Kobeissi Letter, indicam que quase 80% do ativo estava concentrado nas mãos de poucos antes da promoção de Milei.
Javier Smaldone, especialista em informática e influenciador digital, explicou que o ocorrido pode ser classificado como um “tapete puxado”, uma prática comum em esquemas de pirâmide.
“Uma criptomoeda é criada, é dada liquidez inicial e, com uma campanha publicitária, atrai-se compradores. O valor do ativo sobe até que os responsáveis retiram o dinheiro e o esquema entra em colapso”, disse ele à AFP, detalhando que a operação durou cerca de duas horas e envolveu um volume de aproximadamente US$ 4,4 bilhões.
Ainda no sábado, o bloco peronista União pela Pátria anunciou que apresentará um pedido de impeachment contra o presidente na segunda-feira, 17, devido ao ocorrido.
Figuras da oposição, como a ex-presidente Cristina Kirchner, usaram suas redes para denunciar Milei.
Kirchner chamou-o de “golpista de criptomoedas” e acusou-o de atuar como um “gancho para um golpe digital”.
Vale lembrar que, em 2021, o então deputado e agora presidente já havia promovido a plataforma CoinX, que oferecia lucros mensais de 8% em dólares e agora também está sendo investigada por suspeitas de fraude.
Para o deputado Maximiliano Ferraro, da Coalizão Cívica, o episódio com a criptomoeda $LIBRA representa uma manobra especulativa, aproveitando o poder político de Milei e o uso de informações privilegiadas.
Veja abaixo a publicação do governo argentino anunciando a investigação:
